segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A professora

Na classe reinava o silêncio. A turma do terceiro ano estava empenhada na prova de redação. A jovem professora, apesar de ser estreante na carreira do ensino, conseguia impor certa autoridade aos alunos, com exceção de alguns moleques mais atrevidos. Entre eles, sobressaía-se Carlinho, apelidado de Pica-pau, por causa do topete ruivo sempre levantado em cima da testa. A professora procurava não entrar em choque direto com ele, pois sabia, por experiência, que ia acabar perdendo a parada. 
Pica-pau era astuto e inteligente. Sem dúvida, seria o primeiro da classe, caso dedicasse um mínimo de atenção às tarefas escolares. Mas sempre andava distraído, aproveitando-se de qualquer oportunidade para
soltar suas piadinhas que faziam cair a classe inteira em estrondosas gargalhadas. Naquele dia de prova, o Pica-pau, ao invés de fazer sua redação, começou a desenhar bonecos.
A professora, que se movia lentamente entre as carteiras, seguindo as provas de cada um, ficou aborrecida com o comportamento “Quando a crítica for feita, ela deve ser dirigida ao ato impróprio da criança ou do adolescente, nunca a ele(a), pois o problema está em sua ação”.  incorreto de Carlinho. Sem dizer uma palavra, retirou-lhe abruptamente o papel da prova, mandando-o em seguida para o fundo da classe, lugar onde os alunos costumavam ficar de castigo. Pica-pau pareceu não se importar nem um pouco com isso e, mantendo sua habitual postura irreverente, apitou duas vezes, como fazem os guardas de trânsito
quando apontam uma infração. A classe inteira, que até aquele instante estava em silêncio, estourou numa sonora gargalhada. A jovem professora mordeu um lábio. Mais uma vez sentiu que o moleque a vencera. Tentando manter sua autoridade, olhou-o severamente dizendo:
— Amanhã você só poderá entrar na escola acompanhado por sua mãe. Estas palavras surtiram um estranho efeito sobre o menino, que logo arregalou os olhos e, pela primeira vez, pareceu manifestar certa apreensão. No dia seguinte, chegou à escola cabisbaixo, acompanhado pela mãe. Era esta uma mulher corpulenta, ruiva como o filho. Tinha feições grosseiras, sua expressão revelava uma mal reprimida prepotência. Em pé, na sala de reuniões, olhava em volta desconfiada, segurando o menino pelo braço, como para evitar que lhe escapasse. A professora chegou apressada, porque estava
quase na hora de iniciar a aula. Cumprimentou a mulher, tentando ser cordial, mas não lhe passou despercebida a estranha atitude do menino, que agora olhava para ela com a expressão angustiada de quem pede socorro. A mulher não esperou que a professora iniciasse
a conversa.
— Pois é — disse rudemente — precisava isso
também, não bastam os desgostos que este fedelho me dá
lá em casa, todos os dias!
A professora, surpreendida pelo tom agressivo
da mulher, abriu a boca para falar, mas não teve tempo,
pois a mulher, mais carrancuda ainda, continuou:
— Eu sei por que a senhora mandou me
chamar, conheço bem o patife do meu filho! Ele não estuda é desobediente, atrevido e mentiroso! Não é isso que a senhora ia me dizer? E, sem esperar pela resposta finalizou:
— Mas, desta vez, vai se dar mal, ele não sabe
do que sou capaz!
Sacudiu com violência o braço do menino e
berrou:
— Você é igual ao desgraçado do seu pai! Só
me dá desgosto e vergonha!
A mulher calou-se, encarando com desespero a professora. Parecia prestes a ter um colapso.
A professora, atordoada, olhava para a mulher e, ao mesmo tempo, para o menino, que tinha perdido totalmente seu costumeiro ar de zombaria e irreverência.

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