sexta-feira, 4 de outubro de 2013

"Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor."

OFÉLIA 


Dizei-me em que lago ou rio 
jaz a inamovível Ofélia. 

Ofélia, a louca, afogou-se. 

Ofélia, a louca, em que lago 
ou rio de correnteza, 
entre sebes afogou-se? 
Entre estrelas, orvalho, espuma 
afogou-se a bela Ofélia? 

Lua de alvo palor, 
dá-me notícia de Ofélia 
que por amor, só por amor, 
levada na correnteza, 
como um círio, um cisne, uma pétala 
entre lágrimas afogou-se. 

Dá-me notícias o vento? 
Nem a fonte sussurrante 
viu passar a louca Ofélia? 
A doce pomba no abrigo? 

Nem os pássaros viajantes 
dão-me notícia de Ofélia? 
Pelos bosques afagantes 
não passou a pálida Ofélia? 

Corvos da noite, gralhas, tempestades 
que varrem as nuvens, por acaso, 
não vistes um grão, um só grão 
do corpo úmido de Ofélia? 

Voa incerto sobre cerros, 
planícies, desfiladeiros, 
o corpo álgido de Ofélia? 

Se, em verdade, Ofélia é morta 
à penugem fatal do amanhecer. 

Dizei-me se à vespertina luz 
Ofélia, a louca, apodrece. 

Dizei-me, ó sopro da tarde, 
se Ofélia, a louca, repousa 
em pântano resplandecente. 

Dizei-me se ouço a voz dela 
que só aos deuses é dado ouvir 
seu nome apenas; dizei-me 
se não é de anjos essa voz flutuante 
na vaga do céu descorado.

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